Uma nova prática está ganhando força entre as maiores empresas do Brasil: distribuir créditos mensais para que os funcionários usem inteligência artificial livremente — uma espécie de “vale-IA”. A iniciativa, que mistura experimentação e pressão por resultados, coloca o país na vanguarda de uma transformação que já envolve de Nvidia a Amazon.
O Nubank e o Magazine Luiza estão entre os principais nomes que adotaram esse modelo. A ideia é simples na teoria: dar acesso irrestrito a ferramentas como ChatGPT, Claude e Gemini e deixar que os próprios funcionários encontrem formas de aplicá-las. Na prática, porém, a “feira de ciências da IA” revela tanto o potencial de inovação quanto as tensões que a tecnologia traz para o ambiente de trabalho.
A nova mesada digital
Os números impressionam. O Nubank investe cerca de 500 mil dólares por mês, cerca de 2,6 milhões de reais por mês em créditos de IA distribuídos entre seus aproximadamente 9.000 colaboradores. Cada funcionário recebe o equivalente a R$ 1.000 mensais para usar em plataformas como ChatGPT, da OpenAI, e Claude, da Anthropic.
A Magalu, por sua vez, disponibiliza créditos para seus mais de 20 mil funcionários, organizados por área de atuação. O acesso é gerenciado pelo diretor de inteligência artificial da companhia, Caio Gomes, e as ideias aprovadas podem ser desenvolvidas com recursos da empresa.
Mas o caso mais emblemático está fora do Brasil. A Nvidia, empresa que mais ganhou dinheiro com o “bum” da IA, permite que cada funcionário gaste até R$ 52 mil por mês em ferramentas de inteligência artificial.
| Empresa | Funcionários | Crédito por pessoa | Investimento mensal |
|---|---|---|---|
| Nvidia | ~32.000 | R$ 52.000,00 | Não divulgado |
| Nubank | ~9.000 | R$ 1.000,00 | 2,6 milhões de reais |
| Magalu | +20.000 | Por área de atuação | “Algumas dezenas de milhões” |
O placar da inovação: 180 projetos já saíram do papel
O modelo não é apenas um benefício corporativo. É uma estratégia de negócio que já começa a mostrar resultados concretos.
No Magalu, o placar é expressivo: desde o ano passado, a varejista testou mais de 250 projetos baseados em IA e já levou 180 deles para a linha de produção. O índice de conversão de 72% indica que o vale-IA está longe de ser um gasto sem retorno.
Um dos projetos que mais chamou a atenção foi o “WhatsApp da Lu”. Utilizando a personagem virtual da marca, a empresa criou uma experiência de compras conversacional que permite ao cliente fazer todo o processo — da busca ao pagamento — dentro do aplicativo de mensagens. O projeto foi citado pela Meta como um caso de inovação mundial.
Os riscos: entre a inovação e a pressão
Mas nem tudo é positivo nessa história. A prática tem um lado B que está tirando o sono de diretores de recursos humanos.
O principal temor é que os funcionários usem os créditos para atividades pessoais. O caso mais notório aconteceu na Amazon, onde funcionários passaram a usar as ferramentas internas de IA para tarefas desnecessárias apenas para inflar artificialmente suas métricas de uso — uma prática apelidada de “tokenmaxxing”. A empresa implementou uma ferramenta chamada MeshClaw e passou a monitorar o uso de tokens de mais de 80% dos seus desenvolvedores.
A Folha de S.Paulo revelou que o Nubank também monitora de perto os funcionários. Os que mais usam chatbots são destacados em relatórios internos, e as métricas de uso de IA aparecem ao lado de indicadores de desempenho que medem o quanto cada colaborador gerou de economia ou receita para a empresa. Procurado, o Nubank preferiu não comentar o assunto.
Magalu não impõe metas, mas os funcionários são estimulados a testar ideias. A empresa aposta em um modelo mais colaborativo, no qual a adoção da tecnologia acontece naturalmente. “Nossa estratégia prioriza a experimentação prática em vez de núcleos de inovação isolados, porque assim temos a adoção natural da tecnologia em diversas áreas. As soluções nascem com as dores das equipes”, afirma Caio Gomes.
A transformação que já chegou
Para além dos vales e das feiras de ciências, a realidade é que a IA já está mudando a operação dessas empresas.
No Nubank, modelos próprios de IA já são usados para análise de crédito no Brasil e no México — inclusive em decisões automatizadas de empréstimos pessoais realizadas em menos de um segundo. O banco digital encerrou o primeiro trimestre de 2026 com mais de 135 milhões de clientes e um lucro líquido de US$ 871 milhões, alta de 41% em relação ao ano anterior.
No Magalu, a IA também tem gerado ganhos expressivos. O setor financeiro conseguiu reduzir o tempo de processamento de pagamentos de semanas para minutos. A área de recursos humanos automatizou a validação de contratos e acelerou o acesso a informações de sistemas internos. “A coisa boa é que o mato está tão alto agora que quase qualquer coisa que você faz traz um resultado nesse momento”, resume Caio Gomes.
A ansiedade corporativa em números
A oferta de créditos de IA não é um capricho corporativo — é uma resposta a uma ansiedade profunda. Dados da consultoria Korn Ferry revelam que 40% dos líderes de recursos humanos ainda não sabem o que será da força de trabalho com o avanço da IA.
Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam um dilema prático: talentos especializados em IA chegam a custar 15% a mais do que a média do mercado, o que torna inviável contratar especialistas para cada área. A saída encontrada foi transformar o funcionário comum em um “alfabetizado em dados” — na marra, com crédito na mão e expectativa de resultado do outro lado.
O que esperar do futuro
O vale-IA é um daqueles fenômenos que, em poucos anos, pode se tornar tão comum quanto o vale-refeição. Se antes as empresas investiam em treinamentos formais de tecnologia, agora elas estão colocando créditos diretamente na mão dos funcionários e deixando que a experimentação conduza o aprendizado.
Mas a prática também levanta questões importantes. Como equilibrar liberdade criativa e pressão por resultados? Onde fica a linha entre monitorar o uso e vigiar o funcionário? E, principalmente: o que acontece com quem não consegue — ou não quer — se adaptar?
Compartilhe essa notícia com o seu chefe, vai que ele institui o Vale-IA na sua empresa.
fonte: Folha de S.Paulo, TechRadar, Valor Econômico, E-Investidor (Estadão), Korn Ferry



